Rio de Janeiro
domingo, 15 de julho de 2007, 13:53 | Online
Rio de Janeiro blinda prédios para fugir de tiroteios
Empresas gastam cerca de R$ 2 milhões para reformar fachadas
Roberta Pennafort, do Estadão

Entre as fachadas já protegidas está a da White Martins, no Shopping Nova América, em Del Castilho, na zona norte, ao lado da Linha Amarela e de favelas perigosas. A BR Distribuidora, que está construindo sede na Cidade Nova, área também cercada de morros, vem reforçando a estrutura.
Algumas empresas já fizeram orçamentos, mas ainda não bateram o martelo. Afinal, sendo os custos tão altos, a decisão demora mesmo a sair. Uma das que estudam a medida é a GE, que tem fábrica perto do Jacarezinho, na zona norte. O Colégio Pio XII, em Guadalupe, perto da Favela do Muquiço, na zona oeste, também mandou fazer orçamento, mas ainda não se decidiu.
A Tivit, braço do Grupo Votorantim, foi uma das pioneiras: blindou parte do prédio, em Vargem Grande, na zona oeste, há três anos. O edifício não fica perto de favelas, mas numa área descampada, o que facilita ações criminosas.
Os prédios normalmente têm a fachada de vidro e os caixilhos (estruturas metálicas) blindados. Segundo Christian Conde, presidente da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin), os vidros, quando atingidos, se quebram, mas o projétil não passa - com o impacto, a bala se desintegra.
Os caixilhos são de aço ou de alumínio com aço. É possível também reforçar a estrutura de alvenaria com chapas de aço. Os blindadores orientam os clientes a optarem pelo grau máximo de proteção, o 3, que suporta tiros de fuzis FAL 762, AR-15 e AK-47. Os materiais são controlados pelo Exército, que cadastra fabricantes e instaladores.
“No Rio, se for menos do que isso, não adianta nada, porque o uso de fuzil pelos traficantes é muito comum”, adverte Helon Catalani, gerente comercial da EMS Blindagem, que recebeu pedidos de orçamento de dois clientes cariocas (duas empresas privadas) no último mês e também já foi procurado para apressar projetos de blindagem residencial. A demanda no Rio foi tanta que levou a empresa a abrir uma filial carioca.
Já os funcionários da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na Avenida Leopoldo Bulhões, na zona norte, colada à Favela de Manguinhos, bem que gostariam que o mesmo acontecesse por lá. Há anos, seguem apavorados com as freqüentes trocas de tiros, que já deixaram marcas nas paredes. A possibilidade será estudada pela fundação. Na quinta-feira, os servidores fizeram protesto pedindo paz na região e a intermediação da Secretaria Estadual de Segurança Pública.
“Aqui não tem hora para ter tiroteio entre polícia e traficante. Já ouvi tiro às 10 horas, ao meio-dia e à noite. A sensação de insegurança dura o dia inteiro”, diz Paulo da Costa Ribeiro, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Fiocruz, um dos líderes da manifestação. “As condições de trabalho são insalubres. Essa é a melhor definição.” Ribeiro trabalha ali desde 1990. “Desde aquela época, só piorou”, diz, lembrando que a direção orienta os funcionários a evitarem ir embora depois das 17 horas.
As empresas citadas que recorreram à blindagem foram procuradas pela reportagem do Estado, mas nenhum representante comentou o assunto.
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